Nós portugueses, levamos a língua demasiado a sério.... não me interpretem mal, eu gosto de (pelo menos tentar) escrever correctamente, mas a experiência que tive com Ingleses e Americanos a propósito da língua inglesa, fez-me rever a forma como encaro a minha própria língua.
As alterações do " novo" acordo ortográfico têm vindo a levantar muitas criticas por parte dos portugueses. O argumento patriota da defesa da "nossa" língua e dos "nossos" valores culturais é o mais frequente, mas também o mais infeliz.
Se é a nossa língua e o nosso valor cultural, devemos começar por questionar o que pensamos da ideia de países como o Brasil passarem a ter a sua própria língua, falariam brasileiro e seguiriam as regras da "sua" língua. Quem defende a "nossa" língua e o "nosso" valor cultural, poderá ter assim o seu argumento justificado, defendendo a separação da língua portuguesa falada no Brasil.
Se a língua é um valor cultural, ele é também dinâmico. Evolui, altera-se com o tempo, molda-se e é moldado.
Defender a língua como um valor cultural imutável, obriga à defesa da escrita do Português como definido (pelo menos) no acordo ortográfico "simplificado" de 1911, e quem o defende não o faz com escrita de 1911.
Sendo mais extremista, quem defende a língua portuguesa como valor cultural imutável, deveria por principio reconhecer que este acordo tem na sua base a verdadeira origem da língua portuguesa: procura a aproximação da escrita à fonética em vez de defender a aproximação da escrita à etimilogia, que resultou durante séculos no afastamento das pessoas da escrita, criando separações sociais que ainda hoje têm efeitos na forma como satirizamos os erros de ortografia.
Finalmente.... Para que serve a língua portuguesa?
Portugal é, na minha opinião, uma nação que por razões culturais e históricas, sempre compreendeu o significado e a importância de comunicar, de se fazer compreender.
As nossas mãos acompanham o que dizemos, talvez porque tantas vezes foi a única forma de nos fazermos compreender pelo mundo fora.
Hoje quando recebemos pessoas de todo o mundo, procuramos falar a sua língua, criando "portunhóis" e "italianhóis" que estranhamente facilitam o nosso contacto.
Escritores portugueses, que tantas vezes utilizamos como embaixadores da língua portuguesa, criaram palavras e desafiaram a gramática construindo textos que hoje nos deliciam e palavras que acabaram por entrar na escrita do nosso dia a dia.
A língua portuguesa, como todas as outras serve para comunicar, não é um fim em si mesma e se eu voltasse a falar como os soldados romanos ninguém me compreenderia.
O "novo" acordo ortográfico não é perfeito, como nunca o poderia ser pelo simples facto de reunir regras para o Português de tantos países, não é no entanto um "ditador", nem proscreve quem o não adoptar da sua nacionalidade.
Não é perfeito para portugueses que com 10 milhões de habitantes se sentem "donos" de uma língua nativa de 236 milhões, e sentem que uma consoante os pode definir ou diferenciar .
Não é perfeita para brasileiros, que continuam a não ter uma língua "brasileira" e para a escrever correctamente têm que empregar tantas regras que não fazem qualquer sentido na sua fonética
Não será, com certeza, perfeito para os restantes PALOP, que embora mais próximos do Português falado em Portugal, têm que adoptar todas estas regras a muitas palavras que nem compreendemos....mas que são também Português.
A perfeição do acordo ortográfico está em reunir 8 países de todo o mundo na defesa da nossa língua e não na dos portugueses.... está na demonstração natural e cultural que existe entre PALOP, de se aproximarem apesar das distâncias que os unem... está na capacidade da língua moldar-nos e deixar-se moldar pela diversidade que nos caracteriza e nos distingue tão bem de outros falantes.
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